98
Views
Open Access Peer-Reviewed
Editorial

Pesquisa em envelhecimento: o que o brasil realmente necessita?

Aging research: what does brazil really need?

Einstein Francisco Camargos

DOI: 10.5327/Z2447-21152018v12n2ED

Chegamos ao fim de mais um Congresso Brasileiro de Geriatria e Gerontología (CBGG) no qual foram premiados os três melhores trabalhos científicos de cada área (geriatria e gerontologia). Ocorrido na cidade do Rio de Janeiro, entre 6 e 8 de junho de 2018, o Congresso contou com 743 trabalhos submetidos, dos quais cerca de 20% foram recusados por não preencherem critérios mínimos para seleção, pautados, sobretudo, em se caracterizar como estudos acadêmico-científicos.

Em uma análise mais detalhada dos trabalhos recusados percebemos que, em sua maioria, tratavam-se de revisões da literatura que, ao contrário da publicação em veículo pertinente, não contribuem com o conhecimento científico em patamar que seja compatível ao de um congresso nacional. Também chamou a atenção da Comissão Científica a quantidade de “relatos de casos” e de “relatos de experiência” submetidos e recusados, por se tratarem de estudos de situações demasiadamente corriqueiras, do cotidiano de quem trabalha com idosos. Segundo Parente et al., “relatos são a descrição detalhada de casos clínicos, contendo características importantes sobre os sinais, sintomas e outras características do paciente, e relatando os procedimentos terapêuticos utilizados, bem como o desenlace do caso. Possuem indicação clara em situações de doenças raras, para as quais tanto o diagnóstico como a terapêutica não estão claramente estabelecidos na literatura científica”.1 Nesse sentido, tão somente relatar a simples experiência em acompanhar um paciente idoso após um evento de acidente vascular encefálico em sessões de fisioterapia, por exemplo, não constitui a princípio um relato compatível com amplo interesse científico.

Por outro lado, houve a apresentação de estudos muito interessantes, que demonstram o vasto e inexplorado campo de pesquisa sobre o envelhecimento no Brasil. Publicamos na presente edição os resumos referentes aos trabalhos “TOP 10”, tanto da Geriatria quanto da Gerontologia, que, mediante qualidade atestada independentemente por dois pareceristas, foram selecionados para apresentação oral no evento, havendo concorrido aos prêmios oferecidos. A título de menção, destacamos um representante da pesquisa básica laboratorial (“Efeitos do tratamento com nanopartículas de ouro sobre a bioquímica e cognição em modelo de taupatia”), um representante dos estudos de coorte (“Taxa de conversão para demência de uma amostra de brasileiros de baixa escolaridade com Comprometimento Cognitivo Leve”), e um estudo original de avaliação de serviços de interesse à população idosa no Brasil (“Urgência e emergência ao idoso: prevalência dos atendimentos no SAMU-CE 192”), entre outros. Trata-se de pesquisas importantes para conhecermos melhor nosso país e estabelecer prioridades sociais.

Um questionamento abrangente que devemos fazer se refere ao enorme desperdício de tempo e dinheiro na produção de estudos irrelevantes, especialmente em um momento de forte carência de recursos para ciência e tecnologia — e nossa área infelizmente reproduz essa tendência. No CBGG de 2018, 5% dos trabalhos submetidos (e aprovados) foram baseados em “perfis” (de internações, medicações, morbidades, perfil antropométrico, perfil de idosos institucionalizados etc.), como se ainda desconhecêssemos as principais mazelas e desafios que se põem diante dos profissionais e das equipes multiprofissio-nais. Existem importantes lacunas de conhecimento na geriatria e gerontologia que precisam ser preenchidas. Areas como nutrição, fisioterapia, fonoaudiologia, biologia, farmácia, psicologia e sociologia têm relevantes contribuições apara a sociedade brasileira, e precisam assumir o protagonismo da pesquisa sobre o envelhecimento e com idosos. Produzir ciência significa mais do que lançar ideias ou reproduzir estudos. Em muitos casos, uma pergunta e uma pesquisa simples são mais interessantes e relevantes que pesquisas caras e complexas. Lembro aqui de um singelo estudo submetido como tema livre no CBGG de 2014 que se chamava “A influência da adição de tempero na preferência por alimento com diferentes concentrações de sal”. Os pesquisadores ofereceram amostras de pão francês aos idosos com três concentrações de sal (421,2; 648,0 e 874,8 mg sódio/100 g), os quais respondiam de qual amostra gostavam mais. Concluiu-se que a simples adição de tempero (orégano) ao pão aumentou a frequência de escolha pela forma menos salgada do alimento. Esse estudo, realizado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, acabou sendo publicado na prestigiada Journal of Clinical Hypertension.2

Precisamos investir nosso dinheiro e nossos esforços em produções acadêmico-científicas sérias e que tragam algum retorno à sociedade. Citando Claude Bernard: “A ideia é a semente; o método é o solo que lhe fornece as condições de se desenvolver, de prosperar e de dar os melhores frutos segundo sua natureza. O método, por si mesmo, não produz coisa alguma”.3

Einstein Francisco Camargos

Editor chefe

 

REFERÊNCIAS

1. Parente RCM, Oliveira MAP, Celeste RK. Relatos e Série de Casos na Era individuals. J Clin Hypertens (Greenwich). 2014;16(8):587-90. da Medicina Baseada em Evidência. J Bras Video-Sur. 2010;3(2):67-70. https://doi.org/10.1111/jch.12365

2. Villela PT, de-Oliveira EB, Villela PT, Bonardi JM, Bertani RF, Moriguti 3. Maia NF. A Feitura da Ciência. In: Maia NF, ed. A ciência por dentro. JC, et al. Salt preferences of normotensive and hypertensive older 3a ed. Petrópolis: Vozes; 1992. cap. VII.

3. Maia NF. A Feitura da Ciência. In: Maia NF, ed. A ciência por dentro. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; 1992. cap. VII.


© 2018 All rights reserved