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Open Access Peer-Reviewed
Editorial

Revisão por pares: importância, responsabilidades e vantagens

Peer review: importance, responsibilities, and benefits

Einstein Francisco Camargos

DOI: 10.5327/Z2447-21152018v12n3ED

Nos ambientes acadêmico e editorial, a revisão por pares (ou arbitragem) consiste em um processo colaborativo que permite quemanuscritos submetidos para publicação sejam avaliados e comentados por especialistas independentes, inseridos no mesmo campo de pesquisa/estudo ou especialidade médica. A avaliação e a crítica resultantes da revisão fornecida pelos avaliadores proveem aos autores sugestões para melhorar seu trabalho e, criticamente, permitem que o editor avalie a adequação do artigo para publicação na revista.

A revisão por pares tem sido empregada há quase 300 anos, em contraposição à atitude predominante dos cientistas da época, quando preferia-se manter as descobertas em sigilo ou dentro de um círculo restrito.1

Frente ao significativo aumento do número de publicações científicas no mundo, notadamente no campo da saúde, houve também uma maior demanda por avaliadores para a avalanche de manuscritos submetidos para os periódicos. Até mesmo revistas renomadas globalmente têm apresentado dificuldades em encontrar avaliadores dispostos a oferecer seus conhecimentos e tempo na avaliação de artigos. Um estudo de Fox2 analisou dados de revisão por pares de cerca de 52 mil revisões de 24 mil trabalhos de pesquisa submetidos à seis periódicos distintos e mostrou que os editores tiveram dificuldades em recrutar avaliadores. Nesse estudo, apenas 22% das pessoas convidadas aceitaram prontamente o convite.

O avaliador de um artigo submetido à revista constitui um importante protagonista de um sistema acadêmico, assim como do devido processo editorial, sendo de suma importância para o desenvolvimento da ciência e de incomensurável responsabilidade social. Na área da geriatria e gerontologia, essa responsabilidade é ainda mais concreta. Quando um avaliador recomenda a aceitação de um manuscrito para que seja publicado, chancela uma qualidade técnica mínima para que o estudo seja divulgado cientificamente. Com o advento da publicação de estudos em meio eletrônico (concomitante à publicação física ou, exclusivamente, em mídia digital), muitas vezes aberta ao público leigo, os resultados de estudos mal conduzidos e/ou interpretados podem promover iatrogenias e charlatanismo na prática clínica gerontológica como, por exemplo sugerir uma intervenção médica cujo benefício não supere o risco de danos.

A seguir, alguns aspectos importantes que favorecem o processo de revisão de um artigo científico3,4 em formato de recomendações para possíveis avaliadores:

• rapidez: ao ser consultado, responda prontamente ao e-mail de convite, aceitando ou recusando o mesmo, pois favorece que o editor tenha tempo hábil para convidar outros pesquisadores, se for necessário;

• profissionalismo: a revisão por pares é uma responsabilidade mútua entre colegas cientistas e espera-se que os cientistas, como parte da comunidade acadêmica, participem. Se você espera que outros revisem seu trabalho, você também deve se comprometer a rever o trabalho de seus pares e se esforçar para isso;

• gentileza: se o trabalho for de baixa qualidade, sugira que seja rejeitado, mas não deixe comentários depreciativos ao autor. Assegure-se de que a revisão seja científica, útil e cortês. Seja sensível e respeitoso com a escolha de palavras e tom em uma revisão;

• colaboração: sugira como os autores podem superar as deficiências do artigo. Uma revisão deve guiar o autor sobre o que é bom e o que precisa funcionar do ponto de vista do revisor. O revisor de um artigo desempenha o papel de um colega científico, não um editor de revisão ou tomada de decisão. Não comente sobre questões editoriais e tipográficas. Em vez disso, concentre-se em agregar valor ao conhecimento científico, comentar sobre a credibilidade da pesquisa realizada e as conclusões obtidas. Caso o trabalho apresente muitos erros tipográficos, sugira que ele seja revisado profissionalmente como parte do processo de revisão;

• prazo: atenha-se ao cronograma dado ao conduzir uma revisão por pares. É importante ser pontual tanto por respeito à revista quanto ao autor;

• limitações: o revisor deve ser realista sobre o trabalho apresentado quanto às mudanças que sugere e com relação a sua real importância. Revisores que sugerem mudanças exageradas, em um nível muito alto para o patamar original do artigo, dificultam a resolução por parte dos autores. Nesse caso, considere a rejeição do manuscrito como uma opção;

• organização: um revisor deve revisar suas recomendações antes de submetê-las à revista, de modo a evitar erros estruturais, gramaticais e de grafia ou por falta de clareza. Comece com uma visão geral das melhorias propostas; em seguida, forneça feedback sobre a estrutura do artigo, a qualidade das fontes de dados e os métodos de investigação usados, o fluxo lógico do argumento e a validade das conclusões tiradas.

Embora a revisão por pares não dê ao revisor quaisquer benefícios econômicos, outros benefícios devem ser considerados, a exemplo de aumentar a rede de pesquisadores em seu campo de estudo, ampliar suas chances de colaboração em futuros estudos multicêntricos, incrementar seu aprendizado pessoal ao manter-se atualizados no seu campo de pesquisa, aperfeiçoar técnicas e formas de escrita científica, entre outras.

O processo de revisão por pares é um elemento fundamental no desenvolvimento da ciência e sua aplicabilidade prática. No entanto, não é responsabilidade exclusiva dos editores e expõem a maturidade científica de um país.

Einstein Francisco Camargos

Editor chefe

 

REFERÊNCIAS

1. Rooyen S. The evaluation of peer-review quality. Learned Publishing. 2001;14:85-91. http://doi.org/10.1087/095315101300059413

2. Fox CW. Difficulty of recruiting reviewers predicts review scores and editorial decisions at six journals of ecology and evolution. Scientometrics. 2017;113:465-77. https://doi.org/10.1007/s11192-017-2489-5

3. Kelly J, Sadeghieh T, Adeli K. Peer Review in Scientific Publications: Benefits, Critiques, & A Survival Guide. EJIFCC, 2014;25(3):227-43.

4. Starck JM. Scientific Peer Review: Guidelines for Informative Peer Review. New York: Springer; 2017.


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