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Epidemiologia das quedas entre idosos no Brasil: uma revisão integrativa de literatura

Epidemiology of falls in older adults in Brazil: an integrative literature review

Sarah Musy Leitãoa,b; Samily Cordeiro de Oliveirac; Luciana Ramalho Rolimb; Raquel Pessoa de Carvalhob; João Macêdo Coelho Filhoa,c; Arnaldo Aires Peixoto Juniora,b,c

DOI: 10.5327/Z2447-211520181800030

RESUMO

OBJETIVO: Realizar revisão integrativa de literatura sobre epidemiologia de quedas entre idosos no Brasil, buscando identificar taxa de ocorrência, recorrência e fatores potencialmente modificávies associados a esses episódios.
MÉTODO: Foi efetuada revisão de literatura, consistindo na busca de artigos científicos das bases de dados Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (LILACS) em 14 de novembro de 2017. Os artigos foram selecionados a partir das seguintes palavras-chave: “Acidentes por quedas” E/OU “Idoso” E/OU “Brasil”. Dados epidemiológicos foram extraídos dos estudos primários e comparados.
RESULTADOS: Foram selecionados 35 artigos. A maioria dos estudos foi realizada nas regiões Sudeste (15) e Sul (11). A taxa de ocorrência de quedas variou entre 10,7 e 59,3%. O domicílio, no período diurno, é o cenário mais frequente de quedas. As circunstâncias mais comumente descritas são tropeço, escorregão, tontura e existência de desnível, ocasionando tombo da própria altura. Os fatores mais frequentemente associados às quedas foram sexo feminino, idade maior que 80 anos, déficit cognitivo e sintomas depressivos. As consequências identificadas foram fraturas e o medo de cair novamente.
CONCLUSÃO: Alguns fatores associados aos tombos em idosos no Brasil são modificáveis e prevenir as quedas pode possibilitar a redução da morbimortalidade nessa população.

Palavras-chave: acidentes por quedas; idoso; Brasil; epidemiologia.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To conduct an integrative literature review on epidemiology of falls in older adults in Brazil, seeking to identify occurrence rate, recurrence, and potentially modifiable factors associated with these events.
METHOD: This literature review consisted of searching the Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE), Scientific Electronic Library Online (SciELO), and Latin American and Caribbean Center on Health Sciences Information (LILACS) databases for scientific articles on November 14, 2017. The following keywords were used for finding articles: “accidental falls,” AND/OR “elderly,” AND/OR “Brazil.” Epidemiological data were collected from primary studies and then compared.
RESULTS: Thirty-five studies were selected. Most of them were performed in the Brazilian Southeast (15) and South (11) regions. The occurrence rate of falls ranged from 10.7 to 59.3%. The most common setting for falls was the home during daytime. The most commonly described circumstances were tripping, slipping, dizziness, and uneven flooring, resulting in falling from one's own height. The factors most frequently associated with falls were female sex, age greater than 80 years, cognitive impairment, and depressive symptoms. The reported consequences were fractures and fear of falling again.
CONCLUSION: As some factors associated with falls in older adults in Brazil are modifiable, fall prevention may reduce morbidity and mortality in this population.

Keywords: accidental falls; aged; Brazil; epidemiology.

INTRODUÇÃO

As quedas vêm sendo identificadas como a principal causa externa de morbidade e mortalidade entre idosos em todo o mundo.1 Além disso, são consideradas um importante indicador de piora da qualidade de vida entre eles assim como da qualidade dos serviços de atenção à saúde que atendem essa faixa etária.2

A taxa de ocorrência de tombos entre idosos é variável, a depender do método utilizado para investigar esse fenômeno.3 Em 2011, foi realizado um estudo nacional sobre quedas em idosos, analisando sua prevalência, fatores de risco e consequências.4

Apesar da abrangência deste estudo, pesquisas regionais vêm mostrando dados diferentes quanto à prevalência e quanto a outros aspectos relacionados a tombos entre idosos. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo realizar uma revisão integrativa da literatura sobre a epidemiologia das quedas entre idosos no Brasil, incluindo os institucionalizados, buscando identificar fatores potencialmente modificávies associados a esses episódios.

 

MÉTODO

Foi realizada uma revisão integrativa da literatura publicada sobre a epidemiologia de quedas em idosos no Brasil. Para a elaboração dessa revisão, seguiram-se as seis etapas conforme o método: reflexão e elaboração da pergunta norteadora; seleção e busca de artigos; definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados; avaliação crítica dos trabalhos selecionados; discussão dos resultados; e apresentação da revisão integrativa.

Pergunta norteadora

Para a primeira etapa, foram elaboradas as seguintes perguntas norteadoras: “qual a prevalência de queda em idosos no Brasil?”, “quais as circunstâncias das quedas em idosos no Brasil?” e “quais os fatores associados a quedas em idosos no Brasil?”.

Estratégia de busca e seleção de artigos

Foi realizada a busca de artigos científicos nas bases de dados Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (LILACS), em 14 de novembro de 2017. Os artigos foram selecionados a partir das seguintes palavras-chave indexadas nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “accidental falls(“acidentes por quedas”),elderly” (“idoso”) e “Brazil” (“Brasil”), sendo utilizadas todas as combinações possíveis, com os recursos disponibilizados pelos operadores boolianos AND e OR. Um programa gerenciador de referências (EndNote X7 para Windows, Thomson Reuters 2013) foi utilizado para pesquisa bibliográfica e rastreio. Artigos originais nas línguas inglesa e portuguesa foram considerados aptos para inclusão na revisão.

Critérios de inclusão e de exclusão

Após a busca dos artigos conforme a estratégia descrita, foram selecionados artigos originais utilizando os determinados critérios de inclusão:

• o artigo deveria ter como objetivo avaliar quedas em idosos no Brasil;

• conter em seu texto informações quantitativas sobre prevalência ou incidência de tombos, fatores de risco e/ou suas circunstâncias.

Foram utilizados como critério de exclusão:

• o fato de os artigos serem estudos de revisão;

• relatos de casos;

• aparecerem como estudos repetidos na pesquisa;

• não se enquadrarem nos critérios de inclusão.

Informações a serem extraídas

Os dados extraídos dos estudos primários e incluídos nesta revisão foram:

• número de idosos avaliados;

• idade dos idosos;

• sexo;

• método de coleta das informações;

• prevalência de quedas;

• recorrência de quedas;

• região do país onde os idosos residiam;

• local de moradia dos idosos;

• local das quedas;

• horário das quedas;

• circunstâncias das quedas;

• fatores de risco para quedas;

• presença de comorbidades se houvessem.

Avaliação crítica dos trabalhos selecionados

Os artigos originais selecionados foram, então, submetidos à leitura inicial para compreensão global e identificação quanto ao tipo de artigo e método utilizado no estudo. Em uma segunda leitura, foi realizada uma análise dos dados disponibilizados nos estudos.

Para facilitar o entendimento, foi montado o Quadro 1 com os seguintes dados dos estudos: autor, ano de publicação, desenho do estudo, número de pacientes, média de idade, sexo, prevalência de quedas no último ano, recorrência de quedas, região do país, local de moradia, local da queda, horário da queda, circunstâncias e fatores de risco. Esses dados foram dispostos em ordem conforme o ano da publicação.

 

 

Nele, foram listados estudos com avaliação da prevalência de quedas entre idosos residentes no Brasil. Sete outras pesquisas foram realizadas com uma população de idosos em que todos os participantes incluídos necessariamente já haviam sofrido tombos previamente, além de residirem no Brasil. Estes não estão listados no quadro, mas são comentados ao longo do texto.

Foram avaliados estudos com idosos da comunidade, assim como estudos com moradores de instituições de longa permanência para idosos (ILPI).

 

RESULTADOS

A busca no MEDLINE resultou em 88 artigos, na SciELO, em 58 artigos e no LILACS, em 163 artigos, totalizando 309 estudos publicados de 1997 a 2017. Os títulos e resumos dos artigos recuperados foram selecionados, a fim de determinar se eram potencialmente elegíveis para inclusão.

Foram considerados inelegíveis para o presente estudo 274 deles, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Os textos completos dos 35 artigos restantes foram analisados e utilizados na revisão (Figura 1).

 


Figura 1 Fluxograma referente ao percurso de seleção dos artigos, Fortaleza, CE, 2017.

 

A maioria dos estudos incluídos nesta pesquisa tem metodologia transversal, dois deles são estudos caso-controle e apenas um era uma coorte prospectiva.

Houve uma superioridade no número de estudos brasileiros realizados nas regiões Sudeste e Sul do país. Apenas cinco trabalhos analisaram dados exclusivamente de cidades das regiões Norte e Nordeste. Na maioria dos artigos selecionados, houve uma maior representatividade do sexo feminino na população estudada.

Local de moradia dos idosos

Entre os estudos selecionados na revisão, o total de 30 foi realizado sobre quedas em idosos da comunidade, enquanto 5 foram realizados com pacientes institucionalizados.

Taxa de ocorrência de quedas em idosos

Dentre os artigos escolhidos, 23 foram escritos a partir de estudos transversais, com idosos da comunidade, o que permitiu identificar o percentual de ocorrência de episódios de quedas em idosos não institucionalizados.

Possivelmente pelo uso de metodologias diferentes, seja por entrevista presencial ou por telefone, seja pelo uso de coleta de informações em prontuário, a ocorrência de quedas entre idosos da comunidade, nos últimos 12 meses, variou de 10,7%, no Rio Grande do Sul (59 cidades), até 59,3%, em Belo Horizonte (MG).2,5

Quanto à recorrência das quedas, a variação dos dados é ainda maior, e isso se deve também à diferença de metodologia utilizada para o cálculo desse percentual. Alguns estudos calculam esse dado a partir da relação entre o número de pacientes que apresentaram dois ou mais tombos e o número total de idosos avaliados (índice); outros dividem o número de pacientes com duas ou mais quedas pela quantidade de pacientes que caíram (coeficiente ou taxa). O percentual de recorrência de tombos em idosos da comunidade variou entre 8,7 e 64,1%.2,6 No entanto, a fórmula empregada não está clara em vários artigos, dificultando a análise precisa dos dados.

No único estudo de coorte prospectiva com idosos da comunidade realizado na população brasileira e que foi selecionado por essa revisão, a incidência de quedas foi de 30,9% e a recorrência, de 10,8%.7

Entre os estudos com pacientes idosos residentes em ILPI, todos transversais, foi identificada uma ocorrência de tombos que variou de 32,5 a 66,7%.8,9 A presença de dois ou mais episódios recorrentes de quedas foi identificada em 57,7% em um dos estudos com idosos institucionalizados e 80% em outro estudo realizado com população de idosos de ILPI que já haviam caído.8,10

Local, horário e circunstâncias das quedas em idosos da comunidade

Dois estudos mostraram que o quarto é o local onde mais ocorrem quedas em idosos da comunidade.2,11 Outros cenários comumente envolvidos com os tombos são o banheiro, o quintal e as áreas externas.2,9,12 O domicílio, portanto, é o principal cenário das quedas entre idosos da comunidade, reforçando que esse espaço deve ser o mais seguro e equipado possível para evitar essas ocorrências.2,11-17

Entre os trabalhos com idosos da comunidade e que avaliaram o horário dos tombos, um total de quatro estudos evidenciou que elas ocorrem preferencialmente no período diurno (manhã e tarde).11,17-19 Nessa mesma população, as circunstâncias associadas às quedas foram identificadas por alguns autores. O tropeço, o escorregão, a existência de desnível e o piso escorregadio e irregular favoreceram o tombo da própria altura ao caminhar.11-13,16,17,20

Já entre os idosos institucionalizados, o quarto também foi o local mais citado como associado a quedas, seguido de tombos em pátio (área externa) e sala.8-10,21,22 Entre esses estudos, apenas um cita o horário dos episódios de quedas, mais frequentes durante o período diurno. Esse mesmo estudo também é o único que investiga as circustâncias dos tombos nessa população específica, sendo esses episódios associados a escorregão e tontura.8

Fatores de risco e condições associadas a quedas em idosos

Fatores de risco para quedas em idosos brasileiros com boa evidência científica

Nenhum dos artigos analisados mostrou que ser do sexo masculino é fator de risco para cair. Já 15 estudos evidenciaram que o sexo feminino está associado a quedas em idoso da comunidade .4-7,12,14,15,20,23-29

Outras importantes associações de risco para quedas entre idosos da comunidade são idade maior que 80 anos (7 artigos)4-6,15,26,28,30, déficit cognitivo (3 artigos)2,3,28 e sintomas depressivos (3 artigos)3,6,26.

Fatores de risco para quedas em idosos brasileiros com regular ou fraca evidência científica

As seguintes características foram identificadas como fatores de risco para quedas em apenas 2 dos 25 artigos sobre idosos da comunidade: não ter cônjuge,7,28 morar só,4,28 osteoporose,3,15 baixa escolaridade,5,7 síndrome de fragilidade,12,31 sedentarismo,4,30 uso de auxiliadores para locomoção,5,15 percepção da saúde como sendo ruim20,30 e dependência para atividades básicas da vida diária (ABVD).7,32

As condições clínicas a seguir foram associadas a tombos entre idosos da comunidade em apenas um artigo cada: dor crônica por mais de dois anos,3 osteoartrites,3 doenças osteoarticulares em geral,25 incontinência urinária,3 catarata,3 déficit visual em geral,7 déficit auditivo,6 cochilos diurnos,26 ingestão de mais de quatro doses de bebida alcoólica por dia,33 fratura prévia,7 hospitalização prévia,6 obesidade,4 existência de mais de oito doenças,6 raça negra,16 polifarmácia,30 presença de cuidador,27 estação do inverno,29 qualidade ruim do sono,34 baixa força muscular34 e uso de benzodiazepínicos e antidepressivos.35

Entre os estudos com idosos institucionalizados, os fatores associados a quedas são bastante diferentes dos da comunidade. Por exemplo, a cor da pele branca foi citada como fator associado a tombos em dois desses estudos.21,22 Outras condições associadas a quedas entre idosos de ILPI foram: hipertensão arterial sistêmica,9 dorsalgia,21 uso de psicotrópicos,8 polifarmácia,22 sintomas depressivos22 e separados ou divorciados.22

Consequências das quedas em idosos da comunidade

Para os idosos, a principal causa externa de morbimortalidade são as quedas, enquanto para os não idosos são os acidentes de trânsito. Idosos mais jovens e ativos são vítimas de acidentes de trânsito mais frequentemente que de quedas.17

Um dos estudos realizado com idosos da comunidade identificou o medo de cair em 70,4% dos indivíduos como consequência do episódio de queda.13 Um dos trabalhos realizados com idosos da comunidade relata que fraturas ósseas ocorreram em 30,6% dos idosos que caíram.29 Em outro estudo com características semelhantes, a fratura de fêmur ocorreu em 68,6% dos idosos.13

Um único artigo selecionado, delineado com um grupo de pacientes idosos institucionalizados que caíram, avaliou fraturas ósseas como consequência dos episódios de tombos. Identificou-se um percentual de 40% de fraturas secundárias a esses eventos.10

Antes et al.36 relacionaram o medo de cair recorrente, presente em 57,1% dos idosos de sua pesquisa, com sexo feminino, menor convívio com os amigos, doença da coluna e limitações para ABVD após a queda.

A ocorrência de tombos depende de um conjunto de fatores, sendo muitos evitáveis ou modificáveis, passíveis de mudanças relativamente fáceis que podem reduzir o risco de quedas e a morbimortalidade da população idosa.3,5,11

 

DISCUSSÃO

Queda em idosos é um problema de saúde pública que pode resultar em aumento dos gastos com a saúde e diminuição da qualidade de vida. Para preveni-las, é importante um amplo conhecimento epidemiológico do cenário atual.

Dentre os estudos analisados, a prevalência de tombos foi superior entre mulheres e maiores de 80 anos.4-7,12,14,15,20,23-30 Esses dados são concordantes com os achados de outro estudo brasileiro, realizado por Pimentel et al.37 Neste, foi identificada uma associação entre quedas e qualidade de vida em idosos da comunidade. Os idosos caidores apresentaram uma pior média no domínio de aspectos emocionais no questionário de qualidade de vida Short Form Health Survey-36 (SF-36), com desenvolvimento de sentimentos negativos e medo de novas quedas.37

O simples medo de cair pode limitar bastante a funcionalidade do idoso e até mesmo deixá-lo restrito ao leito, facilitando o advento da síndrome de imobilidade. Tal medo deve ser abordado pelos profissionais de saúde, a fim de torná-lo algo útil para a prevenção de quedas, porém sempre evitando a imobilidade e a perda funcional.13,36,37

A investigação quanto à história de tombos, seus fatores de risco e suas consequências, portanto, deve fazer parte da anamnese no Programa de Saúde da Família e do atendimento em saúde de idosos em qualquer cenário, dada sua importância e prevalência.6

O percentual de ocorrência de quedas entre idosos da comunidade variou de 10,7 até 59,3%,2,5 sendo ainda maior entre os idosos residentes em ILPI, de 32,5 a 66,7%.8,9 Já a taxa de recorrência de tombos em idosos da comunidade brasileira variou de 8,7 a 64,1%.2,6 No entanto, a fórmula utilizada para o cálculo da taxa de recorrência não está clara em vários artigos, sendo esse um fator que pode ter influenciado a amplitude significativa dessa taxa.

Comparando os resultados encontrados com os da literatura internacional, é possível observar que existe heterogeneidade dos resultados em diferentes países. Sandoval et al.38 realizaram revisão de literatura sobre a ocorrência de quedas em idosos da comunidade e incluíram artigos do Brasil, dos Estados Unidos, da Espanha, da Itália, da Nigéria, da Turquia e da China. A ocorrência de tombos variou entre 15,9 e 56,3%, com mediana de 28,5%.38 Mesmo apresentando grande variação, foi possível observar que episódios de quedas em idosos são muito comuns em diferentes países, apesar de suas peculiaridades e diferenças socioeconômicas e culturais.

Um estudo de revisão sistemática envolvendo trabalhos que investigaram quedas em idosos em países do sul da Ásia identificou uma taxa de prevalência da ordem de 10,4% na Tailândia, chegando a valores de até 53,6% nas Filipinas. A maioria dos fatores de risco identificados por esse estudo foi semelhante aos encontrados no Brasil. No entanto, diferentemente dos estudos brasileiros e de outros países, foram pesquisados e identificados como fatores de risco relacionados a tombos o sedentarismo e o fato de viverem de maneira dependente da família, em ambientes multigeracionais.39

Um estudo de metanálise analisou a incidência de lesões relacionadas a quedas entre idosos na China continental. Concluiu-se que essa incidência é moderada, sendo a incidência geral entre maiores de 60 anos de 54,95 por mil habitantes e maior em mulheres do que em homens. Foi identificado ainda que as lesões aumentaram proporcionalmente com a idade.40

Silva Gama et al.41 realizaram também uma revisão sistemática buscando identificar a incidência, os fatores de risco e as consequências de quedas entre idosos na Espanha. Observou-se que a taxa de incidência anual de quedas em pessoas idosas que vivem na comunidade foi de 30 a 35%, enquanto em idosos moradores de ILPI esta foi de 40% ao ano. Os fatores de risco encontrados foram neurolépticos, benzodiazepínicos, comorbidades, diminuição de força física, sexo feminino e antecedentes prévios de quedas. As principais consequências relacionadas a essas quedas foram fraturas e medo de cair. Esses achados foram semelhantes aos encontrados no Brasil.

Como limitação deste artigo, há uma relativa falta de dados sobre tombos entre idosos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-oeste. Além disso, o fato de a maioria dos trabalhos analisados ter como metodologia uma avaliação transversal, com heterogeneidade quanto aos métodos de coleta de dados, e a existência de apenas uma pesquisa de coorte prospectiva publicada sobre esse tema tornam difícil a identificação dos reais fatores de risco para as quedas. Apesar disso, foi realizada uma revisão ampla dos artigos sobre tombos entre idosos no Brasil, permitindo enxergar fatores de risco potencialmente modificáveis nessa população.

 

CONCLUSÃO

A ocorrência de quedas entre idosos variou amplamente, sendo mais frequente em indivíduos institucionalizados. Entre os idosos residentes em ILPI, poucos estudos descrevem fatores de risco associados a esse fenômeno.

Já entre idosos da comunidade, o domicílio, no período diurno, é o principal cenário desses episódios. As circunstâncias relacionadas a tombos são tropeço, escorregão e a existência de desnível, ocasionando queda da própria altura. Fraturas e o medo de cair novamente são consequências identificadas, as quais podem levar à síndrome de imobilidade.

A prevenção deve ser a principal medida de abordagem das quedas nessa população. Entre idosos da comunidade, vários fatores associados a elas são modificáveis ou evitáveis por meio de intervenções simples. Estudos prospectivos serão válidos para confirmar os resultados expostos e avaliar possíveis intervenções.

 

CONFLITO DE INTERESSES

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

 

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Received in June 6 2018.
Accepted em August 2 2018.


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