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Editorial

Perspectivas para a pesquisa e prática clínica em fragilidade

Perspectives for research and clinical practice on frailty

Patrick Alexander Wachholz

DOI: 10.5327/Z2447-21152019v13n3ED

O aumento significativo na produção científica com foco na fragilidade produziu avanços importantes na compreensão dos mecanismos fisiopatológicos e de seu impacto no envelhecimento humano. Associados a uma variedade de marcos conceituais, multiplicaram-se rapidamente instrumentos diagnósticos para a detecção de fragilidade, uma boa parte deles investigando o risco antes de intervenções médicas ou cirúrgicas, outros considerando o planejamento de cuidados complexos de longa duração.1

Apesar desses avanços, a avaliação da fragilidade ainda é visivelmente incipiente na prática clínica geriátrica e mais insuficiente ainda na assistência à pessoa idosa na atenção primária em saúde.2 Nesta edição de Geriatrics, Gerontology andAgeing (GGA), o leitor encontrará uma interessante análise exploratória avaliando a associação entre a presença de fragilidade com variáveis antropométricas e a capacidade funcional em idosos vivendo na comunidade e em casas de repouso.3

É provável que algumas barreiras justifiquem a baixa taxa de avaliação da fragilidade de modo rotineiro em nosso meio,1,4 mas essa lacuna ainda não foi suficientemente investigada. Além disso, as principais agências regulatórias internacionais (Food and Drug Administration, nos Estados Unidos, e Agência Europeia de Medicamentos) ainda não reconhecem a fragilidade como um desfecho ou indicação para intervenções farmacológicas ou não farmacológicas, o que significa que a fragilidade não é elegível para reembolso pelos sistemas de saúde, e que alguns órgãos reguladores ainda relutam em aprovar ensaios clínicos que consideram a fragilidade como resultado.5

A descoberta de modelos animais experimentais de fragilidade renovou as esperanças de que a síndrome possa ser reconhecida como uma medida de resultado em estudos pré-clínicos. Camundongos knockout para interleucina (IL)-10 e para a enzima superóxido dismutase de Cu/Zn(Sod1KO) somaram-se recentemente a modelos de fragilidade em ratos e camundongos que mimetizam em modelos animais os dois critérios mais frequentemente usados para seu diagnóstico (o fenótipo de fragilidade e o índice de fragilidade).6 Estudos com biomarcadores ainda estão restritos a análises e séries observacionais transversais, demandando investigações longitudinais mais robustas e mais bem delineadas para a identificação de seu emprego como marcadores de fragilidade, mas incluem marcadores promissores como fibrinogênio, albumina, dímero D, contagem de leucócitos, IL-6, proteína c-reativa (CRP) e fatores de necrose tumoral alfa (TNF-α).7

Para que possamos avançar na construção de conhecimento sólido sobre quais estratégias de intervenção podem ser eficazes e viáveis para o manejo e a prevenção da fragilidade, é fundamental que consideremos progredir no delineamento das pesquisas envolvendo o tema, incluindo a transição de estudos observacionais (que basicamente analisam a associação entre variáveis) para estudos longitudinais e experimentais que investiguem a ação de intervenções e exposições.4 Uma relevante análise longitudinal sobre preditores de dependência funcional em pessoas com 50 anos ou mais publicada nesta edição é um bom exemplo desse tipo de estudo.8

Para além disso, é importante que se perceba a fragilidade como um estado dinâmico, potencialmente reversível e responsivo a intervenções preventivas. Estratégias para cuidados integrais devem incluir a variação do continuum da fragilidade, focando particularmente na manutenção da capacidade funcional por meio de cuidados centrados na pessoa.4,9 Nesta edição, o leitor encontrará um interessante artigo de revisão discutindo o potencial do treinamento muscular respiratório no manejo da sarcopenia.10

Identificar a presença de fragilidade em um idoso e não propor nem discutir as vantagens de intervenções comprovadamente eficazes parece, em uma analogia grosseira, tão estimagtizante quanto desconsiderar uma intervenção cirúrgica com base apenas na idade biológica de um indivíduo. O uso de termos estigmatizantes na linguagem acadêmica, por sinal, vem sendo amplamente debatido e revisto no meio científico, a ponto de periódicos e eventos científicos internacionais rejeitarem trabalhos que empreguem linguagem considerada pejorativa, como discutido em um artigo de opinião publicado nesta edição da GGA. 11

Outrossim, ao concluirmos, convidamos os leitores a divulgarem a GGA entre seus pares e instituições e a considerarem-na como potencial veículo para a publicação de seus artigos. O Conselho Editorial vem somando esforços com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia para que, em breve, possamos agregar novas indexações à revista, com vistas a disseminar seu conteúdo a audiências cada vez maiores.

Uma boa leitura.

 

REFERÊNCIAS

1. Walston J, Bandeen-Roche K, Buta B, Bergman H, Gill TM, Morley JE, et al. Moving Frailty Toward Clinical Practice: NIA Intramural Frailty Science Symposium Summary. J Am Geriatr Soc. 2019;67(8):1559- 64. http://doi.org/10.1111/jgs.15928

2. Satake S, Arai H. Implications of frailty screening in clinical practice. Curr Opin Clin Nutr Metab Care. 2017;20(1):4-10. https://doi.org/10.1097/MCO.0000000000000341

3. Cunha VA, Baião VM, Santos GA, Ribeiro HS, Correa HL, Melo WM, et al. Frailty syndrome in older adults from the community and long-term care institutions: an exploratory analysis. Geriatr Gerontol Aging. 2019;13(3):141-8. http://doi.org/10.5327/Z2447-211520191900033

4. Dent E, Martin FC, Bergman H, Woo J, Romero-Ortuno R, Walston JD. Management of frailty: opportunities, challenges, and future directions. Lancet. 2019;394(10206):1376-86. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(19)31785-4

5. Trendelenburg AU, Scheuren AC, Potter P, Müller R, Bellantuono I. Geroprotectors: A role in the treatment of frailty. Mech Ageing Dev. 2019;180:11-20. https://doi.org/10.1016/j.mad.2019.03.002

6. Banga S, Heinze-Milne SD, Howlett SE. Rodent models of frailty and their application in preclinical research. Mech Ageing Dev. 2019;179:1- 10. https://doi.org/10.1016/j.mad.2019.01.008

7. Kane AE, Sinclair DA. Frailty biomarkers in humans and rodents: Current approaches and future advances. Mech Ageing Dev. 2019;180:117- 28. https://doi.org/10.1016/j.mad.2019.03.007

8. Vieira MCU, Dias DF, Bortoletto MSS, Silva AMR, Cabrera MAS. Preditores de dependência funcional em pessoas de 50 anos ou mais: estudo de seguimento de 4 anos. Geriatr Gerontol Aging. 2019;13(3):157-66. http://doi.org/10.5327/Z2447-211520191900060

9. World Health Organization. Course L. WHO | WHO Guidelines on Integrated Care for Older People (ICOPE). Genebra: WHO; 2017.

10. Vilaça AF, Pedrosa BCS, França ERT, Amaral TCN, Andrade MA, Castro CMMB, et al. Treinamento muscular respiratório em idosos: estudo de revisão. Geriatr Gerontol Aging. 2019;13(3):167-72. http://doi.org/10.5327/Z2447-211520191900065

11. Oliveira D. A linguagem acadêmica e o estigma na longevidade. Geriatr Gerontol Aging. 2019;13(3):177-9. http://doi.org/10.5327/Z2447-211520191900061


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