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Artigo Original

Preditores de dependência funcional em pessoas de 50 anos ou mais: estudo de seguimento de 4 anos

Predictors of functional dependence among individuals aged 50 years and older: a 4-year follow-up study

Adriano Florencio Vilaçaa; Bárbara Cristina de Souza Pedrosaa; Emanuelle Rocha Tenório de Françab; Thamara Cunha Nascimento Amarala; Maria do Amparo Andradeb; Célia Maria Machado Barbosa de Castroc; Eduardo Eriko Tenório de Françad

DOI: 10.5327/Z2447-211520191900060

RESUMO

OBJETIVO: Verificar o efeito de alterações de fatores sociodemográficos, estilo de vida e condições de saúde na incidência de dependência funcional para as atividades instrumentais de vida diária (AIVD) em pessoas de 50 anos ou mais em área urbana.
MÉTODO: A relação entre AIVD e fatores de risco foi analisada em 412 indivíduos por meio de estudo longitudinal prospectivo com seguimento de quatro anos usando o cálculo do risco relativo (RR) e intervalo de confiança 95% (IC95%) em modelos de regressão de Poisson, ajustados por sexo, faixa etária e escolaridade.
RESULTADO: A incidência de dependência de IAVD foi de 18,9% e estava associada de maneira independente a indivíduos com pior condição socioeconômica (RR = 2,03, IC95% 1,24-3,32), ausência de atividade laboral (RR = 2,46, IC95% 1,31-4,61), consumo irregular de frutas e vegetais (RR = 1,90, IC95% 1,063,38), e pior perfomance no miniexame do estado mental (RR = 2,52, IC95% 1,53-4,17). A diabetes apresentou uma tendência de associação com a incidência de dependência funcional (RR = 1,39, IC95% 0,92-2,10).
CONCLUSÃO: Os resultados demonstram que piores condições socioeconômicas e de saúde estão associadas a maior incidência de dependência funcional por AIVD. Esses achados contribuem na elaboração de programas de promoção de saúde mais abrangentes e efetivos para esta população.

Palavras-chave: estudos prospectivos; pessoas com deficiência; pessoas de meia-idade; fatores de risco.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To verify the effect of change and/or maintenance of poor sociodemographic factors, lifestyle and health conditions on the incidence of functional dependence for instrumental activities of daily living (lADLs) in people aged 50 years or older living in urban settings.
METHODS: The relationship between IADLs and risk factors was analyzed in a prospective 4-year follow-up study involving 412 participants. Relative risk (RR) and 95% confidence intervals (95%CI) were calculated using Poisson regression models, adjusted for sex, age and education.
RESULTS: The incidence of dependence for IADLs was 18.9%. Functional dependence was independently associated with lower socioeconomic status (RR = 2.03, 95%CI 1.24-3.32), lack of occupational activity (RR = 2.46, 95%CI 1.31-4.61), inadequate fruit and vegetable intake (RR = 1.90, 95%CI 1.06-3.38) and poor performance in the Mini Mental "State Examination (RR = 2.52, 95%CI 1.53-4.17). The association between functional dependence and diabetes mellitus approached statistical significance (RR = 1.39, 95%CI 0.92-2.10).
CONCLUSIONS: The results showed that worse socioeconomic conditions and chronic health issues were associated with the incidence of dependence for IADLs. These findings highlight the importance of comprehensive and interdisciplinary health care for populations with these characteristics.

Keywords: prospective studies; disability; middle age; risk factors.

INTRODUÇÃO

O envelhecimento da população mundial e particularmente dos países de baixa e média renda coloca em evidência a importância de zelar pela qualidade de vida à medida que as faixas etárias avançam. Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere articular ações para a promoção da saúde, prevenção de doenças e acesso equitativo a cuidados primários e de longo prazo, a fim de contribuir com a preservação da independência funcional, importante indicador de qualidade de vida durante o processo de envelhecimento.1

Um dos aspectos fundamentais da capacidade funcional é a independência para desenvolver atividades instrumentais da vida diária (AIVD), que pode ser definida como a habilidade do indivíduo para administrar o ambiente em que vive, interagindo socialmente, de forma a preservar sua independência na realização de atividades cotidianas como usar o telefone, ir às compras, preparar a própria alimentação, cuidar da roupa, zelar da casa, usar medicamentos e cuidar das finanças.2 Estima-se que a prevalência desse problema em idosos brasileiros seja de 30,1%,3 enquanto, na Espanha, Inglaterra e Estados Unidos, a prevalência em pessoas com 50 anos ou mais foi observada em 23,5%, 26,0% e 40,0%, respectivamente.4 Tal agravo à saúde implica maior uso dos serviços de saúde, a maiores custos para família e comunidade, ao comprometimento da qualidade de vida e é um preditor de demência.

A incapacidade nas AIVD é multifatorial, ou seja, é determinada por fatores de múltiplas dimensões da vida, o que inclui as condições de saúde, estilo de vida e fatores sociodemográficos, entre outros.1 Embora um significante número de pesquisas de delineamento longitudinal tenham buscado identificar os principais preditores de dependência para AIVD no contexto internacional,5-8 no âmbito nacional, as pesquisas com esse delineamento ainda podem ser consideradas escassas, uma vez que predominam estudos com delineamento transversal cuja temporalidade dos eventos é desconhecida e, portanto, podem ser considerados limitados quando o objetivo é identificar os fatores preditores de dependência funcional para AIVD.9-11 Assim, novas pesquisas com delineamento longitudinal são consideradas necessárias tanto para aprofundar a compreensão sobre o tema quanto para subsidiar estratégias de saúde para seu enfrentamento.

Outro aspecto importante sobre dependência para AIVD é que os fatores preditores e associados são específicos do contexto sociocultural. Em países de alta renda, os principais fatores preditores e/ou associados são as condições de saúde e/ou o estilo de vida,7,8 ao passo que, no Brasil, possivelmente por conta das iniquidades sociais, os dados indicam predominância de fatores sociodemográficos, tais como a baixa renda, menor escolaridade, sexo, faixa etária avançada e condições crônicas.11 Ainda se acrescenta que os trabalhos nacionais identificados foram realizados apenas com idosos, sendo necessários estudos que abordem o problema na meia-idade para identificar precocemente os preditores de dependência.

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi verificar o efeito da mudança e/ou manutenção de pior situação socioeconômica, de estilo de vida e de condições de saúde sobre a incidência de dependência funcional para AIVD em pessoas de 50 anos ou mais residentes no norte do estado do Paraná, Brasil.

 

MÉTODOS

Delineamento de estudo

Trata-se de um estudo longitudinal prospectivo que faz parte de um projeto intitulado "Incidência de mortalidade, morbidade, internações e modificações nos fatores de risco para doenças cardiovasculares em amostra de residentes com 40 anos ou mais de idade em município de médio porte do Sul do Brasil: Estudo de Coorte Vigicardio 2011-2015" (VIGICARDIO).

A coleta de dados do VIGICARDIO ocorreu em duas etapas (linha de base em 2011 e seguimento em 2015). O cálculo do tamanho da amostra na linha de base teve como parâmetros uma prevalência do desfecho de 50%, nível de confiança de 95% e margem de erro de 3%. Considerando perdas e recusas eventuais, houve acréscimo de 25% sobre o cálculo inicial e, assim, a amostra foi definida em 1.332 indivíduos com 40 anos ou mais. Posteriormente, visando garantir a representatividade da população alvo, foi calculado o número de indivíduos a serem entrevistados em cada um dos 86 setores censitários do município, considerando a quantidade de pessoas residentes por sexo e faixa etária. Os setores censitários foram divididos por bairros, ruas e quadras. A amostra final foi composta por 1.180 participantes.

Fizeram parte do seguimento todos os entrevistados da linha de base que foram localizados e aceitaram participar da pesquisa. Não foram adotados critérios de exclusão para o acompanhamento. Em ambos os inquéritos, a coleta de todas as informações e medidas foi realizada por meio de visitas domiciliares.

Amostra

Especificamente para este estudo, foram excluídos todos os sujeitos que na linha de base tinham menos de 50 anos e/ou apresentavam dependência funcional para duas ou mais AIVD. Assim, dos 1.180 entrevistados em 2011, 535 foram considerados elegíveis para este estudo. Desses, 123 foram considerados perdas por diferentes motivos, resultando em uma amostra final de 412 indivíduos (taxa de resposta = 77%) (Figura 1).

 


Figura 1 Fluxograma do processo de amostragem. Cambé, Paraná, 2011–2015.

 

Variável dependente

O desfecho analisado foi a dependência para atividades instrumentais da vida diária (AIVD) por meio da Escala de Lawton e Brody.2 Investigaram-se oito atividades instrumentais (usar o telefone, ir a locais distantes utilizando algum meio de transporte, fazer compras, zelar da casa, cuidar da roupa, preparar a própria refeição, usar medicamentos conforme prescrito e cuidar das finanças). Para cada atividade avaliada, foram propostas três alternativas de resposta:

• não necessita de ajuda;

• necessita de ajuda parcial;

• necessita de ajuda total ou não consegue realizar a atividade.

Quando o entrevistado informava que não tinha o hábito de realizar determinada atividade no seu cotidiano, era solicitado que pensasse se, em caso de necessidade, seria capaz de realizar sem ajuda. A dependência funcional para as AIVD foi definida como necessidade de ajuda parcial ou total para, no mínimo, duas das atividades investigadas.

Variáveis independentes

Características sociodemográficas

O conjunto de variáveis sociodemográficas analisadas e suas respectivas categorias foram: sexo; escolaridade em anos completos de estudo (≤ 3 anos e ≥ 4 anos); faixa etária (50-59 anos e ≥ 60 anos); situação conjugal (sem companheiro e com companheiro); atividade laboral, avaliada por autorre-lato de ocupação remunerada (sim; não) e condição socioeconômica estimada pelo Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), da Associação Brasileira de Empresas e Pesquisas (ABEP), que resulta em uma pontuação que varia de 0 a 100. Tal pontuação foi utilizada para dividir a amostra em tercis que, posteriormente, foram utilizados para criar duas categorias: primeiro tercil (≤ 21 pontos), composto pela população de menor poder aquisitivo (menor), e segundo e terceiro tercil (≥ 22 pontos), que incluem aqueles com melhor condição socioeconômica (maior).

Indicadores de estilo de vida

O grupo de variáveis relacionadas ao estilo de vida e suas categorias foram: atividade física no lazer pelo menos uma vez por semana; tabagismo; consumo insuficiente de frutas e/ou verduras, definido como frequência menor a cinco dias por semana.

Condições de saúde

O grupo de variáveis referentes à condição de saúde foi constituído pelo desempenho cognitivo, bem como pelos principais fatores de risco cardiovasculares: hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabetes mellitus (DM), dislipidemia e obesidade central.

Para avaliar o desempenho cognitivo, foi utilizado o Miniexame do Estado Mental (MEEM), o qual mensura as funções cognitivas globais e seus subdomínios. A pontuação varia de 0 a 30, maiores valores sinalizam melhor desempenho cognitivo.12 Os escores obtidos pelos participantes foram ordenados em ordem crescente e o percentil 25% foi utilizado para criar duas categorias: pior desempenho cognitivo (pontuação ≤ 22) e melhor desempenho cognitivo (pontuação ≥ 23).

Foi considerado portador de HAS o participante que utilizava medicamento específico para seu controle por ordem médica e/ou aquele cuja alteração na média da pressão arterial diastólica (PAD) foi ≥ 90 mmHg e/ou alteração na média da pressão arterial sistólica (PAS) foi ≥ 140 mmHg. A pressão arterial foi medida três vezes, e calculou-se a média das duas últimas medidas.

Foi considerado diabético o sujeito que apresentou glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL de sangue e/ou que utilizava medicamento para controle por ordem médica.

Definiu-se como portador de dislipidemia o indivíduo que apresentou uma ou mais alterações nos parâmetros a seguir: colesterol LDL (LDL-C), colesterol HDL (HDL-C), triglicerídeos (TGL), e ainda o participante em uso de medicamento para controle. Os valores de referência usados para o lipidograma foram os propostos pela V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose: LDL-C ≥ 160 mg/dL; HDL-C ≤ 40 ou 50 mg/dL para homens e mulheres respectivamente; TGL ≥ 150 mg/dl. Tais informações foram usadas para classificar os indivíduos em portadores de dislipidemias (sim) e não portadores (não).

A obesidade central foi identificada de acordo com o valor da circunferência da cintura como referência. A circunferência da cintura foi considerada elevada quando era maior a 88 cm entre as mulheres e 102 cm entre os homens.

Aspectos éticos

O estudo respeitou as disposições contidas nas Resoluções n° 196/6 e n° 466/2012 que normatiza as pesquisas envolvendo seres humanos. Este trabalho foi aprovado na linha de base e seguimento pelo Comitê de Ética em pesquisa da Universidade Estadual de Londrina. Nas duas fases do estudo, todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido após serem informados sobre os objetivos e etapas da pesquisa, garantia de anonimato, participação voluntária e possibilidade de recusa a qualquer tempo.

Análise estatística dos dados

Na linha de base e no início do seguimento, os dados obtidos em formulário impresso foram duplamente digitados em banco de dados do programa Microsoft Office Excel® 2010 e posteriormente comparados, a fim de identificar e corrigir inconsistências por meio dos programas Epi Info® versão 3.5.3 (no ano de 2011) e Microsoft Office SpreadSheet Compare® (no ano de 2015). Na continuação do seguimento, as informações foram obtidas em formulário eletrônico do ODK Collect (Open Data Kit) e depois exportadas para banco de dados do programa Microsoft Office Excel®.

A primeira análise foi realizada para avaliar a associação entre dependência para AIVD e as variáveis que permaneceram constantes durante o estudo (sexo e escolaridade) ou variaram conforme esperado (faixa etária). Esses três fatores foram utilizados como variáveis de ajuste para a segunda análise, a qual avaliou a associação entre dependência para AIVD e as variáveis independentes suscetíveis a mudanças ao passar do tempo (situação conjugal, condição socioeconômica, atividade laboral, tabagismo, consumo de álcool, consumo de frutas/verduras, desempenho cognitivo e condições crônicas). Nessa perspectiva, para a análise desse último grupo de fatores, as variáveis foram dicotomizadas em duas categorias de análise:

• mantiveram-se na melhor condição da linha de base para o seguimento (referência);

• mantiveram-se na pior condição ou evoluíram para pior condição (grupo de comparação).

Para a estatística descritiva foi utilizada distribuição de frequências absolutas e relativas, bem como média e desvio padrão. Para estatística analítica, o teste χ2 foi empregado para testar a associação entre desfecho e variáveis independentes, ao passo que o RR da incidência de dependência para AIVD segundo fatores de risco foi estimada mediante modelos de regressão de Poisson bivariados e multivariados, com ajuste robusto de variância. Todas as análises estatísticas foram realizadas com auxílio do programa IBM SPSS, versão 19.0 para Windows, adotando nível de significância de 5%.

 

RESULTADOS

Entre os 412 entrevistados sem dependência para AIVD na linha de base, a maioria foi composta por mulheres (59,2%), com mais de quatro anos de estudo (68,9%) e com idade entre 50 e 59 anos (57,8%) (média: 59,8; desvio padrão: 7,2), com companheiro (72,1%).

Na comparação de participantes (n = 412) e indivíduos considerados perdas (n = 123), observou-se que a distribuição das categorias de todos os fatores foi similar entre os grupos, exceto para a variável tabagismo, em que a frequência relativa de fumantes foi menor entre os participantes (15,3%) em relação às perdas (25,2%). Todavia, ao comparar os participantes (n = 412) com o grupo elegível para o seguimento (n = 535), constatou-se que a proporção de fumantes foi semelhante entre tais grupos (15,3 e 17,6%) (Tabela 1).

 

 

Dos 412 indivíduos seguidos ao longo de quatro anos, 78 (18,9%) tornaram-se dependentes para AIVD. No que diz respeito às variáveis sexo, escolaridade e faixa etária — cujos dados foram obtidos em 2011 (linha de base) — , os resultados mostram que os mais velhos (≥ 60) e aqueles com menor escolaridade (≤ 3), têm, respectivamente, 1,87 (IC95% 1,25-2,80) e 2,34 (IC95% 1,58-3,46) vezes maior risco de dependência de AIVD em relação aos seus pares. Na análise ajustada, apenas a menor escolaridade manteve-se associada à maior incidência de dependência para AIVD (RR = 1,99; IC95% 1,32-3,00) (Tabela 2).

 

 

Na análise bivariada entre AIVD e mudanças nos fatores sociodemográficos, de estilo de vida e de saúde, verificou-se que a maior incidência de AIVD se associou prospectivamente à perda de companheiro, menor condição socioeconômica (primeiro tercil), ausência de atividade laboral, consumo insuficiente de frutas e verduras, presença de diabetes e menor pontuação no MEEM (< 23 pontos) (Tabela 3). Após ajuste para variáveis de confundimento (sexo, faixa etária e escolaridade), observou-se que a dependência para AIVD se manteve associada à menor condição socioeconômica (RR = 2,03; IC95% 1,24-3,32), ausência de atividade laboral (RR = 2,46; IC95% 1,31-4,61), consumo insuficiente de frutas e verduras (RR = 1,90; IC95% 1,06-3,38) e menor pontuação no MEEM (RR = 2,52; IC95% 1,53-4,17) (Tabela 3). A presença de DM tendeu a se associar com a incidência de dependência para AIVD (RR = 1,39; IC95% 0,92-2,10), contudo não houve diferença estatisticamente significativa.

 

 

DISCUSSÃO

Este estudo epidemiológico observacional, do tipo coorte prospectiva, verificou que a baixa condição social e alguns hábitos e situações crônicas de saúde foram fatores significativamente associados ao aumento de risco de dependência para AIVD, mesmo após ajuste para variáveis de confundimento. Esse evento foi significativamente mais frequente entre os que tinham pior situação socioeconômica, baixa escolaridade, sem atividade laboral, baixo consumo de frutas e verduras e pior desempenho cognitivo, também se verificou tendência a associação com DM, demonstrando que a incidência de dependência para AIVD foi maior entre os que tinham condições de vida adversas.

Após quatro anos, a incidência de dependência para AIVD em população com 50 anos ou mais foi de 18,9%. Essa frequência foi semelhante à de outro estudo brasileiro, realizado no município de São Paulo, que identificou taxa de incidência de 17,8% em oito anos de acompanhamento entre pessoas com 60 anos ou mais.13 Entretanto, deve-se ponderar que os estudos longitudinais sobre o tema no Brasil são escassos, abordam população idosa e diferem metodologicamente ao quantificar a dependência funcional, o que dificulta, portanto, a comparação dos resultados.

As características que afetam a dependência funcional parecem ser diferentes no Brasil em relação às nações de alta renda cujos principais fatores associados são as condições de saúde e o estilo de vida,7,8 ao passo que aqui predominam fatores socioeconômicos modificáveis e condições crônicas.11,13

No que diz respeito à escolaridade, verificou-se maior evidência de dependência funcional para AIVD entre os que tinham três ou menos anos de estudo quando comparados aos mais escolarizados. Considerando que as AIVD são atividades complexas que requerem interação precisa de habilidades cognitivas, as quais são mais desenvolvidas quanto maior for a escolaridade,14 a primeira hipótese para explicar tal associação é que a baixa escolaridade se reflete em pior desempenho das funções executivas, o que interfere na capacidade funcional e evidencia-se na falta de êxito ao executar as AIVD. Por outro lado, baixos níveis de escolaridade geram menor acesso individual a recursos socioeconômicos e contexto social de pobreza. Neste sentido, uma segunda hipótese para esse achado é que a baixa escolaridade leva à dependência para AIVD em razão dos escassos recursos que a pessoa tem, o que a torna mais exposta ao risco de adoecer e à perda funcional. Nessa perspectiva, acredita-se que investimentos em educação poderiam prevenir ou retardar a dependência funcional, mediante seu efeito sobre circunstâncias associadas a pouca escolaridade: má condição de saúde, declínio cognitivo e situação socioeconômica precária.

A incidência de dependência para AIVD foi superior no grupo que permaneceu ou tornou-se mais pobre durante o seguimento, quando comparado ao grupo que manteve melhores condições socioeconômicas. No contexto nacional, há evidências de que desigualdades socioeconômicas são componentes essenciais das iniquidades em saúde, de modo que aqueles em posições socioeconômicas mais baixas apresentam maior risco de agravos à saúde e de dependência funcional em relação aos seus pares com melhores condições socioeconômicas.9,15 Apesar de distinto em relação aos países em desenvolvimento, o impacto das disparidades sociais na funcionalidade também foi constatado em estudos internacionais em países mais desenvolvidos.5,16 Nesse sentido, é possível que a situação socioeconômica precária repercuta negativamente na possibilidade de acesso aos bens que permitem preservar o bem-estar e a saúde, contribuindo assim para a dependência funcional. Outro aspecto relevante sobre esse achado é que a situação socioeconômica na meia-idade pode ser o reflexo das condições de trabalho e da escolaridade em etapas anteriores da vida, a qual pode agravar-se ainda mais após a aposentadoria, aumentando assim o risco de dependência.

A dependência para AIVD associou-se à falta de atividade laboral. Constatou-se que o maior número de casos novos de dependência para AIVD foi no grupo que se manteve sem atividade laboral ou a perdeu durante os quatro anos do estudo, quando comparado com o grupo que manteve o trabalho durante esse mesmo período. A falta de atividade laboral diminui as possibilidades de interações sociais, favorecendo a dependência funcional. Nessa perspectiva, Escobar e colaboradores constataram que cada instância de interação na rede social que foi perdida (trabalho, igreja, grupo de amigos etc.) aumentou a probabilidade de dependência para realizar atividades da vida diária.17 Outra possível explicação é que a limitação da capacidade para realizar as AIVD, associada à disfunção executiva que acompanha o declínio cognitivo (DC), também pode restringir a execução de atividades laborais. Nesse sentido, Marshall et al. esclareceram que a disfunção executiva é o principal fator que contribui para a deterioração funcional, leva à perda precoce de produtividade e impede a atividade laboral.18

Ji et al. demonstraram que as limitações impostas pela perda funcional para AIVD impactam a qualidade de vida, da qual um dos parâmetros é a capacidade para manter a atividade laboral.19 Por outro lado, não desenvolver nenhuma atividade laboral pode ser o reflexo de um estilo de vida pessoal pouco ativo, com pouco interesse para executar atividades, já que trabalhar pode exigir sair de casa, interagir em diferentes espaços da rede social e executar diariamente várias AIVD, como uso de transporte, uso de telefone e gerenciamento de dinheiro. Assim sendo, acredita-se que não ter atividade laboral acarreta menos oportunidades para exercer as AIVD e menos possibilidade de manter a capacidade para executá-las.

O risco de apresentar dependência para AIVD foi maior no grupo que referiu consumo irregular, quando comparado ao grupo que consumia regularmente. Esse dado vai ao encontro dos achados de uma investigação que incluiu a população do presente estudo, que constatou que esse padrão de consumo é o resultado das desigualdades sociais, já que as principais barreiras para o consumo regular de frutas e verduras, foram o custo, a falta de conhecimentos e hábito familiar.20 Além disso, Soares et al. constataram que a ingestão inadequada de alimentos leva à deficiência nutricional, situação que se associou com condições crônicas e pior desempenho funcional.21

Hardman et al. constataram que a dieta mediterrânea estava fortemente associada com a prevenção e tratamento de processos crônicos que levam à dependência funcional e também contribuía para reduzir o avanço de processos neurodegenerativos.22 Esses benefícios foram observados tanto em idosos quanto em faixas etárias mais jovens que viviam em países do mediterrâneo ou em outros locais do mundo.

No presente trabalho, a DM tendeu a associar-se com a incidência de dependência para AIVD. Tal resultado corrobora a literatura, visto que a DM está entre as condições frequentemente associadas à dependência para AIVD.23 A explicação para essa associação pode estar nos múltiplos agravos que pessoas com DM podem apresentar, entre eles:

• distúrbios vasculares que interferem na circulação, oxigenação e metabolismo celular, sendo acentuados os efeitos na cognição, especificamente nos domínios memória e função executiva, essenciais para executar as AIVD;24

• obesidade e complicações cardíacas são frequentes e, dependendo de sua gravidade, podem ser incapacitantes;23

• problemas na visão, amputações e úlceras de membros inferiores que interferem na mobilidade, impedindo a realização das AIVD com independência.25

A proporção significativa de diabéticos entre os casos incidentes de dependência para AIVD indica a necessidade de ações de saúde, no âmbito da atenção primária, que visem reduzir a carga dessa doença. Compreender o efeito da DM na evolução para dependência funcional e buscar estratégias para a gestão dos fatores de risco para DM podem contribuir com essa finalidade.

A incidência de dependência para AIVD foi maior entre os que tiveram pior desempenho no MEEM em relação àqueles com melhor desempenho no teste. Essa associação é consistente com estudos que analisaram dados de outras populações do Brasil11,13 e de outras nacionalidades.8,26,27 A explicação para esse achado pode estar associada ao fato de que pessoas com DC apresentam prejuízo em uma ou mais funções executivas (memória operacional, controle inibitório e flexibilidade cognitiva)28 como também podem exibir distúrbios na atenção, aprendizado, memória, percepção motora, linguagem e cognição social. Portanto, as dificuldades para raciocinar, planejar e solucionar problemas no dia a dia podem comprometer a capacidade de executar as AIVD sem ajuda. Este dado é relevante porque indica que o DC parece anteceder a dependência funcional, o que vai ao encontro da constatação de uma revisão sistemática realizada em 201529 e também coincide com a contribuição da American Psychiatric Association, que confirma que o DC é preditor de dependência funcional e que a apresentação simultânea dessas duas alterações indica evolução para transtorno neurocognitivo maior, isto é, demência.27 Nessa perspectiva, destaca-se a importância da triagem do estado mental e da capacidade funcional na rede básica de saúde, pois a detecção precoce é particularmente relevante para implementar estratégias de prevenção da demência.

Um ponto forte deste trabalho foi o desenho longitudinal prospectivo, o qual permitiu conhecer as relações temporais entre fatores de risco e incapacidade funcional para AIVD em população brasileira, uma vez que a literatura sobre o tema ainda é incipiente. A baixa taxa de perdas também deve ser destacada, pois garantiu a representatividade da composição entrevistada em relação à amostra elegível para seguimento. Considerando a grande disparidade sociodemográfica que existe no contexto nacional, a relevância deste estudo também está em revelar os fatores de risco associados à perda funcional em população de município de médio porte, uma vez que no Brasil existe carência de dados epidemiológicos de populações que residem fora dos grandes centros populacionais.

Há alguns aspectos do presente trabalho que podem ser considerados como limitações:

• o período de seguimento foi relativamente curto (quatro anos), o que pode ter levado a subestimar o efeito deletério dos fatores de exposição na dependência funcional;

• na interpretação dos resultados, as informações derivadas das escalas utilizadas foram autorreferidas e, portanto, podem ter sofrido influências de barreiras culturais, da cognição e do humor dos participantes; dessa maneira, erros classificatórios de dependência podem ter ocorrido em consequência de tais vieses;

• os resultados podem ser extrapolados apenas para populações com perfil sociocultural semelhante, com baixa escolaridade e limitada condição social.

 

CONCLUSÕES

Este estudo verificou que a pobreza e as condições crônicas de saúde foram fatores significativamente associados ao aumento de risco de dependência para AIVD em pessoas com 50 anos ou mais. Os dados ratificam a importância do aprofundamento dos determinantes sociais da saúde como objeto de análise e intervenção.30 Há necessidade de implementar políticas públicas visando a uma melhoria nas condições sociais e à atenção à saúde integral com profissionais capacitados de diferentes áreas de atuação, pois, embora existam fatores de risco inevitáveis, os associados significativamente à dependência para AIVD neste estudo podem ser evitados por meio de intervenções que abranjam o campo da educação, do trabalho, da economia e da saúde.

 

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Received in August 30 2019.
Accepted em September 19 2019.


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