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Artigo Original

Prevalência da hipotensão ortostática em idosos ambulatoriais e institucionalizados

Prevalence of orthostatic hypotension in elderly patients from ambulatory and institutionalized

Juliana Heliodoro Fonsecaa; Alessandra Tieppob; Livia Terezinha Devensb; Renato Lirio Morelatob,c

RESUMO

OBJETIVOS: Estudar a relação da hipotensão ortostática em idosos ambulatoriais e institucionalizados.
MÉTODOS: Estudo transversal, sobre idosos com 65 anos ou mais de idade, atendidos em Ambulatório de Geriatria e residentes em instituição de longa permanência (ILPI).
RESULTADOS: Foram avaliados 135 indivíduos, 38 da ILPI com 78±9 anos de idade (50% de homens) e 97 atendidos no Ambulatório de Geriatria com 78±7 anos (78,4% mulheres). A frequência de hipertensão arterial foi de 55,3% na ILPI e 78,4% na comunidade (p=0,01). Observamos hipotensão ortostática em de 7,9% na ILPI e 3,1% nos idosos da comunidade. Os fármacos associados à hipotensão ortostática foram: os antidepressivos - odds ratio (OR=10,18 (IC95% 1,30-79,52), p=0,02 - e anticonvulsivantes - OR=251 (IC95% 1,55-67,44), p=0,01. A presença de quedas nos últimos seis meses foi de 26,3% na ILPI e 27,8% dos pacientes ambulatoriais. Não observamos associação de quedas com hipotensão ortostática, OR=1,34 (IC95% 0,23-7,66).
CONCLUSÃO: A hipotensão ortostática foi mais frequente nos idosos institucionalizados; estava associada a antidepressivos e anticonvulsivantes, e não foi associada a quedas nesta população estudada.

Palavras-chave: Hipotensão ortostática; Idoso; Saúde do idoso.

ABSTRACT

OBJECTIVES: To study the relationship of orthostatic hypotension in outpatients and institutionalized ones.
METHODS: Cross-sectional study of elderly aged 65 or older, who were attended in a geriatric ambulatory and residents in long-stay institutions (ILPI).
RESULTS: They were evaluated 135 individuals, 38 of ILPI with 78±9 years of age (50% men) and 97 geriatric outpatient clinic with 78±7 years (78.4% women). The frequency of hypertension was 55.3% in ILPI and 78.4% in the community (p=0.01). Orthostatic hypotension was observed in 7.9% in ILPI and 3.1% in elderly in the community. The drugs associated with orthostatic hypotension were: antidepressants - odds ratio (OR=10.18 (95%CI 1.30-79.52), p=0.02 - and anticonvulsants - OR=251 (95%CI 1.55-67.44), p=0.01, 01. The presence of falls in the last six months was 26.3% in the ILPI and 27.8% of outpatients. No association between falls and orthostatic hypotension, OR=1.34 (95%CI 0.23-7.66).
CONCLUSION: The orthostatic hypotension was more frequent in elderly in institutions; it was associated with antidepressants and anticonvulsants, and was not associated with falls in this population.

Keywords: Hypotension orthostatic; Aged; Health of the elderly.

INTRODUÇÃO

De acordo com Gupta, a prevalência aproximada de hipotensão arterial em ortostase (HO) na população ambulatorial é de 20% em maiores de 65 anos e 30% nos maiores de 75 anos. Foi descrita, também, uma importante prevalência de HO (50%) em pacientes institucionalizados. Essa prevalência de HO em pacientes de uma Instituição de Longa Permanência de Idosos (ILPI) e o aumento desta no grupo de idade mais avançada, cujos idosos são considerados mais frágeis e portadores de múltiplas patologias, indicam que a institucionalização e as mudanças do envelhecimento são grandes facilitadores de HO.1

A hipotensão arterial ortostática é caracterizada pela diminuição da pressão arterial sistólica (PAS) de no mínimo 20 mm Hg ou pela redução da pressão arterial diastólica (PAD) de no mínimo 10 mmHg durante um período de 1 a 3 minutos em ortostase. Pode-se classificar a HO em assintomática ou sintomática. Os sintomas são causados pela má perfusão cerebral decorrente da HO, sendo os mais frequentes: vertigem, síncope, turvação visual, fraqueza, fadiga, quedas, náuseas, confusão, palpitações, tremores, cefaleia ou dor cervical.2

O objetivo deste estudo foi estudar a relação da hipotensão ortostática em idosos ambulatoriais e institucionalizados com fármacos e quedas.

 

MÉTODOS

Estudo transversal, em uma amostra por conveniência de indivíduos com 65 anos ou mais de idade, de ambos os sexos, do serviço de Geriatria do Hospital Santa Casa Misericórdia de Vitória e residentes de uma instituição de longa permanência, "Lar de idosos AVEDALMA", localizado em Cariacica, Espírito Santo. Consideramos para este estudo o período de maio de 2011 a maio de 2012. Foram excluídos os pacientes portadores de síndrome de imobilidade, de Doença de Parkinson e de insuficiência renal crônica. Após a leitura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para os pacientes ou seu responsável e o aceite em participar do estudo, foi preenchido um questionário pelo pesquisador e realizada a avaliação do paciente. O projeto aprovado no CEP-EMESCAM em 29 de março de 2011 (sob o número 2011/007).

Foram realizadas três aferições da PA (sentada e em ortostase), e considerada a média aritmética dos valores obtidos. O esfigmomanômetro automático utilizado foi o OMRON (modelo HEM-711 CINT).3

Além das aferições, questionou-se sobre a sintomatologia da hipotensão arterial ortostática. Os principais sintomas investigados foram: vertigem, turvação visual, fraqueza, fadiga, náuseas, palpitações, tremores, cefaleia ou dor cervical.

Considerou-se HO uma redução da PAS de pelo menos 20 mmHg ou uma redução da PAD de pelo menos 10 mmHg no período máximo de 3 minutos de postura ereta.

Análise estatística: para comparar as médias e o desvio padrão das variáveis contínuas, empregou-se o teste t para amostras independentes, e para as categóricas, por meio de percentagem, o teste χ2. Para testar a hipótese de associação com fármacos, sintomas clínicos ou incidência de quedas entre os grupos, usou-se o modelo multivariável de regressão logística com o método passo a passo para frente (Foward: LR), com modelo de aderência de Hosmer-Lemeshow, para avaliar quão bem o modelo escolhido se ajusta. Foi empregada estatística paramétrica ou não paramétrica, de acordo com a distribuição da amostra, método de Kolmogorov-Smirnov, para comparar os grupos de pacientes da ILPI e atendidos no Ambulatório de Geriatria. Valores p<0,05 foram considerados significantes. Empregamos o software SPSS 17.0 para análise dos dados.

 

RESULTADOS

Foram incluídos no estudo 135 idosos, sendo 38 da ILPI e 97 atendidos no Ambulatório de Geriatria.

Na ILPI, 50% dos idosos eram homens, enquanto no ambulatório 78,4% eram mulheres.

Na Tabela 1, observamos que a média de idade na ILPI foi semelhante à média de idade observada entre os idosos ambulatoriais, assim como os valores médios de PA sistólica e diastólica, tanto na posição sentada quanto em ortostase. No entanto, a frequência de hipertensão arterial foi de 55,3% (21 idosos) na ILPI e de 78,4% (76 casos) no ambulatório (p = 0,01).

 

 

A frequência da hipotensão ortostática foi de 7,9% casos na ILPI e 3,1% no ambulatório.

A presença de quedas nos últimos seis meses foi de 27,4% considerando os idosos da ILPI e ambulatoriais.

Na Tabela 2, observamos que a prescrição de antipsicóticos foi mais frequente na ILPI, e os tiazídicos e BCC no ambulatório. Dos hipertensos, 96,9% eram aderentes às medicações.

 

 

Na Tabela 3, apresentamos os resultados da regressão logística múltipla, considerando a hipotensão ortostática como variável independente.

 

 

Não observamos associação dos fármacos empregados com as quedas nos últimos seis meses (Tabela 4).

 

 

DISCUSSÃO

A amostra ambulatorial foi predominantemente formada por mulheres (78,4%), e a amostra da ILPI foi paritária.

O maior contingente feminino já era esperado, visto que, no censo populacional de 2010 da cidade Vitória, Espírito Santo, a população idosa é constituída por, aproximadamente, 38% de homens e 62% de mulheres. Além disso, é sabido que a população feminina busca mais por atendimento médico e apresenta maior expectativa de vida.4

Segundo dados de 2009 do Ministério da Saúde, a prevalência de HAS em Vitória, Espírito Santo, foi de 55,6%.5 Nota-se que a amostra ambulatorial apresentou maior taxa de frequência de HAS que a população geral, e a amostra da ILPI, taxa compatível de prevalência de HAS. Observou-se uma importante adesão medicamentosa aos anti-hipertensivos na população estudada, possivelmente em razão da periodicidade das consultas no Ambulatório de Geriatria, acrescida do incremento das políticas públicas na conscientização da população e na facilitação da aquisição dos medicamentos para HAS. Mesmo com a grande adesão, existe o viés de qualidade da adesão, pois se sabe que os pacientes são corretamente orientados a fazer uso da medicação, mas não temos controle sobre o seguimento das recomendações prescritas.

De acordo com Lipsitz, citado por Vishal, a prevalência aproximada de hipotensão arterial em ortostase em pessoas idosas que buscam atendimento ambulatorial é de 20% em maiores de 65 anos e 30% nos maiores de 75 anos.1 Porém, segundo Romero-Ortuno, a prevalência em idosos pode variar entre 5 e 30%, e é o segundo distúrbio pressórico mais comum, perdendo apenas para HAS. Essa prevalência maior de HO em pacientes de ILPI indica que a institucionalização, local com grande contingente de idosos frágeis, e as mudanças do envelhecimento são grandes facilitadores de HO. Os demais fatores de risco são: uso de medicamentos, hipertensão arterial sistêmica mal controlada, cardiopatias, diabetes, síndrome de fragilidade, comuns em indivíduos idosos.6 A discrepância entre a literatura e os valores de prevalência citados, possivelmente, são decorrentes dos poucos estudos sobre o tema, da dificuldade de analisar uma amostra grande e dos vieses presentes. Dos estudos avaliados, a maioria foi realizada em países desenvolvidos, com uma realidade totalmente diferente da nossa, tanto quanto aos aspectos constitucionais dos indivíduos como quanto aos aspectos socioeconômicos e educacionais.7,8 Além disso, as amostras eram muito específicas, contemplando apenas uma parcela da população idosa. Os principais fármacos associados à hipotensão arterial em idosos foram: antidepressivos e anticonvulsivantes.

Independentemente da associação com hipotensão ortostática, os fármacos mais prevalentes na população estudada foram: antipisicóticos, nos idosos institucionalizados, e benzodiazepínicos, nos idosos ambulatoriais. A ação sedativa é muito benéfica durante a noite, mas deve-se lembrar do possível efeito rebote ou da continuação dos efeitos durante o dia. A prevalência de uso de benzodiazepínicos encontrada nos idosos da comunidade foi muito superior quando comparada à literatura. Hanlon et al. estudaram 2.765 idosos, nos EUA, e encontraram uma prevalência de uso de benzodiazepínicos de 9,5%.8

Não observamos associação entre hipotensão arterial ortostática e quedas, nem associação entre os fármacos empregados e as quedas nos últimos seis meses. Acredita-se que tais fatos sejam justificados pelo tamanho da amostra e por se tratar de uma amostra com média de idade inferior a 80 anos, ainda pouco acometida pela fragilidade.

Entre as limitações observadas neste estudo, destacamos o fato de ser uma amostra por conveniência em um ambulatório de referência, a amostra ser pequena na ILPI e a dificuldade de inferência estatística por ser um estudo transversal.

 

CONCLUSÃO

A HO foi mais frequente nos idosos institucionalizados; estava associada a antidepressivos e anticonvulsivantes. e não foi associada a quedas nesta população estudada.

 

AGRADECIMENTOS

Ao Dr. Renato Lirio Morelato, à Dra. Livia, à Terezinha Devens e à Dra. Alessandra Tieppo, ao Hospital Santa Casa de Vitória e à ILPI AVEDALMA, bem como ao APOIO CNPQ/Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC).

 

REFERÊNCIAS

1. Gupta V, Lipsitz LA. Orthostatic hypotension in the elderly: diagnosis and treatment. Am J Med. 2007;120(10):841-7.

2. The Consensus Committee of the American Autonomic Society and the American Academy of Neurology. Consensus statement on the definition of orthostatic hypotension, pure autonomic failure, and multiple system atrophy. Neurology. 1996;46(5):1470.

3. Sociedade Brasileira de Cardiologia. VI Diretrizes Brasileira de Hipertensão. Rev Bras Hipertens. 2010;17(1):4.

4. Prefeitura Municipal de Vitória. Censo 2010. http://legado.vitoria.es.gov.br/regionais/Censo_2010/dados_sinopse_populacao.asp. (Acessado em: 27/2/2012)

5. Ministério da Saúde. DATASUS. http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php. (Acessado em: 27/2/2012)

6. Romero-Ortuno R, Cogan L, Foran T, Kenny RA, Fan CW. Continuous noninvasive ortostatic bloond pressure measurements and their relationship with ortostatic intolerance, fall, and frailty in older people. J Am Geriatr Soc. 2011;59(4):655-65.

7. Hajjar I. Postural blood pressure changes and orthostatic hypotension in the elderly patient: impact of antihypertensive medications. Drugs Aging. 2005;22(1):55-68.

8. Hanlon JT, Horner RD, Schmader KE, Fillenbaum GG, Lewis IK, Wall WEJ, et al. Benzodiazepine use and cognitive function among community-dwelling elderly. Clin Pharmacol Ther. 1998;64(6):684-92.

Conflito de interesses: não há.


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